 Foto e montagem: Lee Swain
Na véspera da entrevista que combinei com Mr. Eric Crauford, o proprietário de um dos sebos de discos mais tradicionais de São Paulo, escuto no rádio a notícia de que a Apple Store comemora novo recorde na venda de musica pela internet: 10 bilhões de arquivos comercializados. Para se ter idéia do isto significa, o noticiário sugere que se as musicas, em uma média de 4 minutos cada, fossem alinhadas em um unico arquivo, seriam necessários 75.000 anos para ouví-las de A a Z. O que corresponde mais ou menos à idade do homem na terra.
Eu e meu chapéu ficamos pensando no efeito que esta notícia teria sobre o cinscunspecto inglês que, 32 anos atrás resolveu largar tudo e abrir uma loja de discos usados na então pacata Arthur Azevedo, em Pinheiros.

Entramos na loja e enquanto esperávamos Mr. Eric, invadimos o labirinto de corredores estreitos forrados de prateleiras de LP’s alfabéticamente organizados, capas de discos e cartazes de shows cobrindo cada centímetro de parede. Em meio a tanta informação, fiquei sem saber o que fotografar. Nestas horas meu chapéu é um guia inestimável. Com calma, me fez perceber vários detalhes interessantes. Aqui uma banqueta forrada com LP’s, ali um divertido relógio de Elvis que marca os segundos com suas pernas rebolantes, que teria passado batido não fosse meu fiel escudeiro.


Estávamos ali, eu e meu chapéu, nos deliciando em meio aquele caos encantador que inspirou o filme Durval Discos, onde foram feitas as cenas de pré-filmagem com Etty Fraser, quando percebemos que éramos observados. Mr. Eric chegou à inglesa, discretamente, e ali mesmo, apoiado nas pilhas de discos, começamos nossa agradável conversa.
 Eric Crauford em sua loja que comemora 32 anos
Nascido na China, filho de mãe russa e pai inglês, logo retornou com a família à Inglaterra, e aos 9 anos de idade comprou seu primeiro disco, sem saber ainda que aquele era o início de uma paixão que o acompanharia por toda a vida.
Quando mudou para o Brasil em 1972, novamente acompanhando a família, o jovem Eric já tinha um acervo impressionante de 27.000 discos, desembarcados em um container no porto de Santos.
 Fachada da Loja na Rua Arthur de Azevedo, Pinheiros
Na Inglaterra já tinha trabalhado até como motorista de taxi, e no Brasil começou ganhando a vida em um banco para logo depois viver de aulas de inglês. Nestes anos todos continuou comprando discos compulsivamente, e a esta altura percebeu que já tinha mais de mil duplicatas, e pouco espaço para crescer sua coleção. Foi quando a casa em frente à sua, onde já havia morado Hebe Camargo, foi colocada à venda. Neste momento nascia a Eric Discos, que em pouco tempo virou a atividade principal de Mr. Eric.
Na vida privada, a produção de Mr. Eric também foi muito intensa: teve 5 filhos e já está no terceiro casamento. Quando comentei que eu também casei tres vezes, porém com a mesma mulher, ele deu uma risada discreta e emendou: “o meu caso é um pouco diferente. Quando elas me diziam: ou eu ou os discos, eu casava de novo (risos)”.
 Eric com uma das raridades do seu acervo.
Hoje o acervo da Eric Discos apresenta números respeitáveis: são mais de 100 mil discos, e outros 10 mil CD’s, um volume que praticamente obrigou a expansão para outras 4 casas adjacentes. Embora se encontre de tudo um pouco, o acervo da loja é mais consistente no período do boom do rockn’roll, a partir dos anos 50, e seus desdobramentos, passando pelos Beatles, Bossa Nova e Tropicália.
Além dos fiéis clientes que frequentam a casa há mais de 30 anos, muitas figuras carimbadas se abastecem no sebo de Mr. Eric, como Supla, João Gordo, Ed Motta e Rui Guerra, entre outros. Já passaram pelo seu portal Trini Lopes, Sonic Youth, Fath Boy Slim.
 Eric com a cantora italiana Rita Pavone, em 1986.
Mas a história que mais empolga nosso entrevistado aconteceu em 1986, quando uma limousine estacionou em frente à sua loja, e desembarcou nada menos que Rita Pavone. A cantora italiana estava em turnê pelo Brasil e veio agradecer pessoalmente uma gentileza de Mr. Eric: colecionador da revista Bilboard, ele a presenteou com um número raro que destacava o sucesso da artista nos EUA.

De trás do seu balcão da Arthur Azevedo, Mr. Eric viu muita água passar. Já teve quatro funcionários, que se viu obrigado a dispensar quando a onda dos CD’s praticamente varreu os pick ups da face da terra e viu seu faturamente cair mais de 40%. Hoje ele assiste de camarote o crescimento do comércio de música virtual práticamente liquidar o seu antigo vilão, o CD, sem abalar seu negócio, que cresce junto ao público jovem, cada dia mais interessados nos ídolos da época de ouro de Mr. Eric.


Ele nunca tocou nenhum instrumento, não canta, mas sua dedicação aos discos é contagiante. A loja transpira música. Ele e sua paixão resistiram ao tempo e deixam gravado em vinil um pouco da história desta cidade. Para Mr. Eric eu tiro o meu chapéu.
Fonte: http://www.euemeuchapeu.com.br/entrevista/a-vida-em-33-rotacoes-por-minuto/ |